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Afinal, de um jeito ou de outro todas as pessoas são minhas companheiras.
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(Texto)
sábado, 22 de dezembro de 2012
“Fumando três maços de cigarro por dia. Se acabando em doses de cachaça, whisky e vodka. Saindo pra baladas ensurdecedoras. Pegando a loira, prometendo casamento a ruivinha e tendo sexo casual com a morena que conheceu no banheiro sujodaquela boate, daquele dia, daquela noite. Torrando o dinheiro com porcaria, deixando a casa suja, mandando aquele chefe chato ir sentir coisas profundas atrás. Ignorando todos os dias os conselhos da mamãe e andando com ordinários que, no fundo, nunca confiará em você e te trapacearão na melhor oportunidade. Não atendendo os telefonemas da sua tia-avó metida á preocupada, apagando os recados dos amigos da faculdade - que formou não sabe pra que. Negando a saudade daquela garota que conheceu no segundo ano do colégio e te fez pensar em um futuro melhor. Caçando confusões por ai, criando pilhas de inimigos. Sendo o cara fodão, pegador, com um carrinho bonito e lotado de fãs… Mas tão vazio de si mesmo. […] Te conheci naquele café em uma tarde de terça-feira. Você estava sentado com olheiras escuras, lendo uma revista de carros. Sentei-me na mesinha ao lado, você disse algo baixo, eu te olhei e você me fitava sério. Seu olhar estava frio e duro. Perfeito. Você precisava de mim. Segui-te até sua casa, fiquei ao seu lado nas noites que não dormira. Havia dias que me ligava chamando-me pra uma festa que iria com os amigos. Sempre negava, de cara, pois você, na verdade, não precisava de mim aquele dia. O tempo passou e você me procurava pra se gabar das coisas, contar quantas garotas dormiu naquela semana e como ficou chapado nos feriados. Eu te ouvia e entendia o quanto seu coração vazio pesava dentro de você. Tentei te dizer uma ou duas vezes que se esconder assim não te faria bem, você me retrucava dizendo que esse papinho furado era chato demais. Acabei por ser sua única amiga, a única que ficava, realmente, ao seu lado. Ao seu lado naquela festa que enchia a cara, ao seu lado no colchão nas noites geladas. A única que te conhecia de verdade. Que sabia da falta que ela fazia. A falta que o amor fazia. Mas na manhã de domingo ela te ligou. Ah, ela te ligou garotão. Tocou, tocou e você fitou o visor do celular com as mãos tremulas. Seu rosto estava pálido, seus batimentos aumentaram de uma hora pra outra. Você ouviu apenas a voz, e o jeito manso de como ela chamava teu nome. Fechou as mãos e jogou o celular a 10 metros de distância com uma força absurda, onde ele bateu na parede e se espatifou. Pôs as mãos na cabeça, e analisou o chão, contraindo os dedos em volta dos cabelos, seu rosto estampava memórias, como se a fumaça dos cigarros não conseguisse mais estacar as lembranças que não queria lembrar. Abracei-te como mãe que acolhe um filho com medo de escuro. Você começou a dizer ‘’É ela, era ela’’. Sua voz era rouca, quase muda. Eu sabia. Eu era uma simples substituta, esperando a hora certa pra sair do teu peito. Eu sempre soube quem ela era. Sempre a vi em sua mente, em todas as noites em que eu estava presente. Era ela quem você lembrava ao ver uma floricultura, e ao ouvir ‘‘The Maine”. Ela que sempre estava em seus planos pro futuro, a única que o fazia pensar em viver de verdade. Ela quem você afogara todos os dias dentro de si com bebidas fortes. Era por causa dela que ouvia musicas altas demais, pra ensurdecer os gritinhos que a saudade dava em seus ouvidos. Era pra não se lembrar da doçura que um dia experimentou, que ficava com garotas amargas e sujas. Por ela que ele pensava em encontrar o homem que já foi, em procurar no meio do entulho que se tornou, o moleque brincalhão, apaixonado, formado em História e com um peito cheio de sonhos. Eu te perguntei o porquê de não atender, sendo que ta doendo tanto esse vácuo ai dentro. Você me respondeu que não queria que ela o visse daquele jeito, tão perdido na bagunça da sua casa, com a mente suja de fumaça, com os sentimentos embriagados com Whisky e o coração enterrado. Pôs as mãos no peito, como se a alma quisesse abrir caminho e jogar-se pelas escadas. Olhou-me e, pela primeira vez, se mostrou como criançinha perdida, triste. Mostrou-se como eu sempre o vira. Seus olhos estavam molhados, seus lábios trêmulos que se abriram com dificuldade e perguntou-me “Solidão, Isso é amor? ’’. Eu sorri, e respondi que sim, mas era só a parte ruim do meu rival. Você se deitou e chorou, tímido, como quem não queria, mas como quem precisava. Essa foi uma noite longa, na qual te olhei e te cariciei mesmo dormindo. Percebi o quanto carinho criei por esse menino, com capa de ovelha negra, mas que é só um menino e, como amiga que me tornei, fiz uma coisa que nunca pretendi fazer. Logo de manhã sai, deixando você em torpor no meio das cobertas. Era cedo, mas ela já se escondia no meio dos livros de medicina na biblioteca central. Soprei no seu ouvido todos os momentos que ela já não se lembrava, todos os sorrisos e beijos. Sai de mansinho, deixando uma lagrima exposta nos olhos, e outra espatifada no livro em uma matéria sobre os ossos da coluna vertebral. Voltei ao seu lado, o acordei, cuidei de você como criança pequena, o convenci a se vestir bem e arrumar ao menos sua cama. Chovia forte, o que me fazia mais intensa em seu peito. Era três horas da tarde, mas o céu se escurecera e ventava frio. Você se agarrou a mim, enquanto eu limpava as lágrimas que desciam em silencio pelo teu rosto. “Toc Toc”. Levantei-me e escorei perto da maçaneta. Da porta saiu mais três pequenos estrondos. “Amor, quatro toques, pra ser fora do comum e você sempre saber que sou eu.” Você se lembrou nitidamente da voz mansa em seu ouvido, explicando o motivo de querer ser diferente das outras garotas. Eu te olhei uma ultima vez, sozinho, com cara de desesperado. Uma única lágrima despencou dos meus olhos. Pois é, a solidão também chora, na verdade, acho que sou a mais chorona das emoções, mas sorri. Um sorriso pintado de adeus. Abri a porta com uma leve brisa, seus olhos se estreitaram, você se levantou e o amor entrou primeiro. Lindo, majestoso, mas simples, estava com seu caderno nas mãos e sorria. Me fitou e piscou– mais um trabalho cumprido, entendi. A garota veio logo atrás, entrou de mansinho, com os lábios contraídos e os olhos molhados. Estava da mesma forma dos sonhos dele, de vestido florido e fita no cabelo. Meu pagamento veio, brilhando, radiante, e se abrigou na minha caixinha – seu sorriso. Um sorriso verdadeiro e sincero, sem dor nem saudade, nem tristeza, nem falsidade, nem solidão… Nem eu, que sempre estive presente em todos sorrisos teus, pra quem sabe ver. Então, por fim, saí. Você compreendeu. Porque com o amor eu não disputo. Não a espaço grande o suficiente pra solidão. Não a espaço para mim, companheira melancólica de todas as noites. Sai sem olhar pra trás, e despreocupei, tirei minhas paranóias da cabeça. Afinal, o amor e a solidão trabalham juntos, mesmo que não possam ficar presentes no mesmo coração. Isso não era um adeus. Você e eu ainda vamos nos encontrar.”
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